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Tenho quatro quilômetros de altura e milhões de anos de idade

por Marcus Telles

Nos achamos racionais e secularizados, mas acreditamos na existência de “eu”, uma entidade com fronteiras mais ou menos demarcáveis no espaço do corpo, com existência independente e autônoma. Mesmo quando pensamos em almas, pensamos assim. Questões como “existe vida após a morte?” frequentemente partem desse pressuposto de eu isolável, que então deixaria ou não de existir, mas por enquanto existe mesmo, aqui e agora. Mas esse entrelaçamento de fenômenos diversos que se encontram em nossos corpos e que costuramos como “eu” é muito maior e difuso no espaço e no tempo, e também muito mais plástico.

Só por puro acaso haverá algum acerto nas especulações que seguem (apenas seres familiarizados com suas próprias mente, atenção, emoções e ideias poderiam fazê-las um tanto melhor, e certamente muitos já fizeram), escritas um pouco por brincadeira e nada por filosofia. Mas a conclusão delas me parece difícil de negar: a realidade humana — não falo de ficção— é incrivelmente mais mágica, plástica, mitológica, não-causal do que parece.

I

É engraçado dizermos que temos algo como 1,80m e 76 kg.

Este corpo de 1,80 vê, ouve, cheira, sente gosto, toca. Então, além de ocupar um pequeno espaço, eu também sou um pedaço do universo que está consciente de formas vários metros — ou mesmo vários quilômetros — à minha frente, vários sons ao redor, vários cheios mais ou menos próximos, além de gostos ou sensações táteis mais imediatos.

Seria plausível pensarmos em nós como um pedaço do universo que toma consciência dessa pequena parte de seu todo. Esse pedaço de consciência do universo não tem 1,80m, mas um tamanho que varia de alguns poucos centímetros a vários quilômetros. Poderíamos ver isto não como uma forma enfeitada de pensar sobre o que somos, mas sim a mais realista. Uma diferença nada irrelevante entre um corpo vivo e um objeto de 1,80m não é sua capacidade de tomar consciência do que está ao redor? Não é poesia, exceto no sentido fundamental de que a própria realidade humana tem base poética.

Quanto olho para o céu, tenho quilômetros de altura. Não é que trago o céu para dentro da minha cabeça, não é que minha mente encontra uma esfera azul lá fora envolvendo a Terra, mas sim que produzo um encontro entre o céu e meus olhos, isto é, um encontro do universo consigo mesmo. (Eu produzo ou o encontro se produz? Porque eu, que produzo, fui produzido pelos encontros dessa atenção e irei em breve desaparecer. Mas muitos outros encontros entre olhos e céus continuarão ocorrendo; os seres que produzirão estes encontros terão sido produzidos também e também rapidamente desaparecerão.)

As fronteiras do meu corpo de 1,80 não são tão definidas quando olho de perto. Onde exatamente acaba minha pele e começa o ar? As fronteiras do meu eu-enquanto-universo-autoconsciente são sempre muito mais imprecisas. Não tenho clareza quanto ao alcance da minha visão, mas ao mesmo tempo sei que ela não é infinita. Vejo apenas um pouco, mas, no entanto, esse infinito que não vejo está presente no que vejo: as cores do que vejo não seriam diferentes se não houvesse nada atrás? Se sim, então faria sentido pensar que este eu relativo é sempre parte do todo, ou, mais exatamente, que este eu é uma forma pela qual o todo percebe parte de si. Perceber seria sempre este fenômeno relativo, imperfeito (termo que se aplica desde que haja a expectativa de percepção correta; caso contrário, a percepção é o que é), só possível a partir do contraste com o que não é percebido. Ver é não ver tudo.

Mas não precisamos abrir mão de, em um nível relativo, identificarmos alguns limites e dizer que “somos” estes limites — ou, ao menos, que “estamos”. Não somos nenhum conteúdo específico, mas a possibilidade de iluminar conteúdos diversos, combiná-los e significá-los em um espaço mental. Quando incluímos também o nível mental — e como não? tudo que foi dito até agora vale também para os animais, e a existência humana é evidentemente diferente em termos mentais — a coisa fica ainda mais interessante.

II

O que experimentamos com nossos sentidos é sempre influenciado por, e influencia de volta, as ideias e emoções que circulam entre nós, e estes funcionam a partir de atuação mais básica de nossos desejos. Não sei como estes níveis se relacionam. Esta parte mais difícil de precisar é também a parte mais determinante das experiências destes seres que, fazendo uma imagem tão ingênua de si mesmos, se descrevem como seres de 1,80m.

Neste espaço do universo que chamo de eu, circulam também ideias e emoções. Além de ser este espaço de atenção, vazio de conteúdo, sou também uma ponte por meio da qual fluem emoções e ideias que outrora habitaram outros seres. Elas tanto surgem e se dissolvem espontaneamente no espaço básico da mente quanto são passados de um corpo para outro. Elas não têm quilômetros de extensão, mas uma infinitude de anos. A maioria delas já existiam antes de se manifestar naquele corpo e continuarão existindo muito após a sua morte.

O corpo antissemita com a cabeça raspada foi criado pela ideia de “antissemitismo” que já existia muito antes dele. E esta ideia só entrou neste corpo porque era compatível com outra ideia (ou uma meta-ideia), a de que existe “nós” e “eles”, que se manifestou em todos os grupos humanos já existentes. Esta ideia, por sua vez, talvez tenha surgido para expressar o desejo de sobrevivência de corpos de seres em luta pela sobrevivência. As ideias mudam os corpos, que mudam as ideias, e assim continuamente.

Um bebê certamente nasce com a potencialidade de sentir raiva, mas a energia de raiva que chega a seu corpo também vai chegar de fora. Basta ver como é possível influenciar todo um ambiente manifestando alegria, amor, compaixão ou, inversamente, raiva, aversão, etc. Alguém irritado nos irrita, e ativamos a raiva em nós; então a passamos para outros. Talvez ainda circule entre nós algum fluxo contínuo de raiva iniciado há cem mil anos. Talvez um fluxo de raiva que se inicie hoje ainda esteja circulando quando nenhum dos atuais prédios de São Paulo estiver mais de pé. Que superpoder maravilhoso esse, que nenhum livro de história jamais registrará: o de saber transmutar em amor ou paciência um fluxo milenar de raiva.

Da mesma forma, temos ideias básicas que talvez comecem com “quero” e “não quero” (água, comida, afeto, etc.) e, por nos estruturarmos culturalmente, adquiriram formas gradualmente mais complexas ao longo de milhões de anos. Ideias como “dentro” e “fora”, “nós” e “eles” devem existir na mente de vários seres, mas a humanidade inventou variações mais específicas — judeus, romanos, império, esposa, Deus. Por quantos corpos diferentes estas ideias não circularam e se reinventaram?

Como dizer que as mitologias, religiões e superstições estão erradas ao falar em deuses, semideuses, espíritos, demônios, entidades etc. que agem sobre os seres humanos? Às vezes isso me soa como um insight mais profundo sobre como não possuímos a nós mesmos, sobre como diferentes forças agem à nossa revelia, tornado letra morta com o passar do tempo. A não ser que empreguemos habilidades enormes de utilizar a atenção, não são as emoções que se encarnam nos corpos com estruturas e hábitos propícios para sua reprodução e os usam para seus fins próprios? Mas apesar de serem relativamente incorpóreos, ou talvez transcorpóreos, eles podem ser mortos — daquela forma pela qual se mata coisas que não têm existência intrínseca: não com armas e violênciamas com atenção, contemplação e outros antídotos, embora também possam viver muito mais que seres humanos.

Frequentemente nos descrevemos em função das estruturas de hábitos que permitem ou impedem a entrada destes demônios — sou ciumento, sou paciente, sou estressado — , mas também não as somos. Mesmo elas podem ser ao menos parcialmente modificados ao longo de uma vida humana. Uma cultura consumista dará forma a corpos com hábitos propícios para a prática do consumo, mas só pode surgir porque anteriormente existiam corpos já quase aptos a internalizar suas estruturas. As estruturas sociais existem no interior de corpos humanos e são renovadas por meio das ações humanas. Cada ação — inclusive pensamentos — é a “brecha” a partir da qual as estruturas podem ser modificadas, até que se modifiquem mais drasticamente, da mesma forma que, segundo o exemplo clássico, a temperatura da água muda gradualmente, mas ferve ao atingir 100 graus.

Acho divertido, mas também coerente, pensar em ideias e emoções como estes monstros ou demônios ou fantasmas semideuses mortais que transitam entre corpos — e, quando são negativas, se perpetuam se aproveitando da vulnerabilidade oriunda de mentes desatentas. Mas eles têm uma característica toda especial: eles ressucitam. Enquanto houver uma mente de ser vivo capaz de identificar uma emoção no rosto de uma expressão artística da Antiguidade, aquela emoção poderá ser reativada no presente. Mas também elementos menos universais — melodias, desenhos abstratos, poemas — podem vir a ressoar na mente de indivíduos milênios depois, ou podem ativar um conteúdo desconhecido mesmo para o artista original. Da mesma forma, a ideia de Roma animou ações de seres humanos muito depois da queda do Império Romano. Como dizer que ela não se reefetivou várias vezes ao longo da história, com Carlos Magno, com Napoleão, vai saber quando mais? Enquanto houverem artefatos da Antiguidades, culturas antigas podem ser animadas por Renascimentos — como de fato fizeram.

 

Estes fluxos de emoções e ideias podem ser vistos ou não como “mesmos” — vale para este tipo de “rios” o que quer que se pense quanto à polêmica entre Parmênides e Heráclito. Talvez a questão nem venha tanto ao caso, exceto da perspectiva limitada de seres que pensam ter 1,80 e viver no máximo 100 anos antes de desaparecer para sempre. Ora, eles não estão errados em enfatizar a continuidade: é possível mesmo distinguir esta estrutura temporária que nasce em 1917 e morre em 2004. Mas ela é uma parte muito pequena, embora necessária, da realidade humana. Mesmo para eles, porém, também é possível enfatizar as diferenças de cada uma de suas manifestações. Podemos pensar que Roma foi a “mesma” ao longo de suas monarquia, república, império, ou mesmo em suas reativações posteriores (a partir de que momento a ruptura é “definitiva”, exceto por um viés que aplique ao império a metáfora de um corpo, que não pode deixar de respirar por um século e seguir vivo?), mas também podemos pensar que cada uma das Romas designadas por este termos são diferentes entre si. Da mesma forma, historiadores podem descobrir o que mentes do passado pensaram, mas é o “mesmo pensamento” este que eles repensam em outro contexto, e com a diferença de saber estar repensando o que outrora foi apenas pensado? De qualquer forma, a Roma que pode ser vista ou como “mesma” ou como “outra” nunca existiu enquanto substância para além do nome que, para fins práticos, a designava.

Um corpo é esse espaço de encontro e influência mútua entre inúmeras causalidades: a do funcionamentos dos órgãos e do sistema como um todo; as do ambiente onde o corpo opera; a de um trem ou uma bala ou um câncer que interrompe todas as outras; a “causalidade figural” ou retroativa de tradições que firam parte do “eu” a partir do momento em que o eu anterior escolhe se fazer dessa nova forma; etc. Nesse último caso, por exemplo, alguém conhece o budismo e passa a ser afetado por um fluxo de significados (que nos ensinam a soltar significados!) oriundos da Ásia que circula por aí por milênios; ou alguém incorpora a ética protestante de trabalho; e ainda por cima, como acontece usualmente, pode misturar esses dois fluxos e usar práticas como shamata para operar melhor dentro do capitalismo.

Assim, em um sentido nem religioso nem metafísico (deixo de lado qualquer outra discussão), a pergunta tradicional “o que fui em minhas vidas anteriores?” depende do que escolho ser nesta. A continuidade não é de uma essência passando de uma vida à outra, ela é costurada retroativamente. Se fui um nativo americano ou um indiano ou as duas coisas ou nenhuma depende destas escolhas. Mas não fomos uma só coisa e não fomos (portanto não somos) especificamente humanos: temos impulso de defesa e ataque porque ainda vivem em nossos corpos as experiências de milhões de gerações de animais, temos estratégias de ocultamento herdadas das plantas, temos pressupostos culturais oriundos do paleolítico, tudo aqui. Vivendo no Brasil, inevitavelmente fomos escravos e fomos senhores de escravo em nossas vidas passadas. As consequências de cada ação passada são “nossas” na exata medida em que chegam até a concha de retalhos que somos — vivendo em uma sociedade capitalista, é difícil não naturalizar a ideia de propriedades privadas e não achar que os predicados de nossas identidades são nossas “propriedades”.

Construímos identidades a partir de uma certa cristalização desses fluxos reunidos no corpo, enquanto o próprio ponto de encontro vai se dissolvendo gradualmente até estragar completamente e apodrecer embaixo da terra — mas nesse meio tempo, uma nova geração já foi formada e novas ideias circulam por seus corpos-que-apodrecerão também. Assim, esses fluxos seguem adiante muito depois da morte dos corpos individuais e sociais específicos por onde circularam — mas seguem modificados por suas incorporações especificas, e podem ser reativados mesmo apos milênios sem se manifestarem.

III

As implicações éticas de sermos tão maiores no espaço e no tempo do que parece inicialmente são gigantes. Sem me alongar demais, vou apontar duas.

Primeiro, como o tamanho que temos depende de nossa atenção, podemos escolher sempre ser grandes. Para que ter o tamanho de uma sala se eu posso olhar para a cidade inteira? Dependo de efetivar as possibilidades da imaginação para incluir em meu fluxo mental os seres que estão fora da minha sala. Jamais deixaríamos de dar atenção às pessoas idosas na nossa frente, mas fazemos isso quase unanimemente como sociedade ao limitarmos nossa mente ao formato dos tijolos de nossos ambientes.

As ideias que circulam entre nós frequentemente são limitadas pelos espaços que frequentamos, e vice-versa . Por só olharmos certos ambientes, só sustentamos ideias compatíveis com eles. Aí nos tornamos estreitos — pensamentos elitistas e excludentes frequentemente dependem disto; perdemos equanimidade. Ver mais paredes e ruas que montanhas pode nos emburrecer, e com a mente estreita construímos lugares ainda mais estreitos. Olhar e andar para outros espaços, ou olhar com o “olhar de estranhamento” de um turista para os próprios ambientes que já frequentamos, muito especialmente olhar para os seres nestes outros locais e dinâmicas — coisas assim nos tornam maiores. A humanidade compartilhada com outro rosto humano pode nos afetar de maneiras inesperadas — não temos controle sobre este processo, embora tenhamos algum controle sobre as condições do processo. O que não estamos vendo?

O nazismo não é só a decisão de matar judeus e mais um punhado de outros elementos políticos. É também a decisão de não se permitir olhar para um judeu sem as barreiras impostas pela ideia previamente concebida de judeu. Não precisa ser feito de propósito: as ideias de exclusão são perigosas também porque nos distraem o olhar.

Outra implicação ética é que podemos ser pontes para as melhores ideias e emoções que podemos conceber com nossos critérios falhos, porém aperfeiçoáveis. (A metáfora da ponte é boa porque a ponte nunca chega a se confundir com as coisas que passam por ela; ela é só o espaço.) Cada ação nossa passa adiante ideia e/ou emoções. As estruturas racistas, machistas, xenofóbicas e, de modo mais geral, a crença em um mundo baseado em círculos de exclusão e não na interdependência de todos os seres, tudo isto passa por dentro de corpos humanos antes de ser passado adiante. Por isso, podemos desarmá-las. Podemos purificar tudo que passa em nosso espaço.

Isso não é auto-ajuda, não é misticismo new age. É óbvio que podemos desenvolver a habilidade de não responder às emoções negativas que chegam a nós, e isto produz imediatamente uma humanidade em que circula um pouco menos de emoções destrutivas. Podemos buscar examinar as ideias que chegam até nós e filtrá-las antes de passar adiante. Podemos ver e ler o que seres humanos pensaram e sentiram há milhares de anos e reativá-los em nossos contextos atuais, e, da mesma forma, podemos não alimentar as ideias que consideramos prejudiciais. Podemos ser ativos em usar o pouco tempo de vida que temos para vasculhar a memória da humanidade e deixar que ela nos afete, que afronte nossas identidades e pressupostos, que alargue nosso campo de possibilidades.

(Estão presentes neste texto os pensamentos de todos os pensadores com quem já entrei em contato. Identifico que, no espaço da minha mente, se encontraram e se pensaram vários elementos do que (não) entendi da tradição budista, especialmente por meio do Lama Padma Samten e do comentário de Thich Nhat Hanh ao Sutra do Coração, e também modificações de coisas que conheci ou ouvi falar por meio de R. G. Collingwood, Erich Auerbach, Hayden White, Lévi-Strauss, Vico, Derrida, Borges, Hegel… Todo texto é sempre feito por uma manifestação peculiar da humanidade inteira, fluindo por meio de pontes particulares. Não é maravilhoso que, sentado em uma biblioteca, olhando para tintas no papel, Borges trouxesse para fluir por dentro de seu corpo processos temporais iniciados em outros locais do planeta? Imaginem uma bolha de bilhar que pudesse se mover por causa de uma tacada dada em outro país ou em outro milênio! Pense no quão realista é pensar nesse caráter mágico da realidade, e no quão simplista, portanto irreal, é nossa noção de realidade se não o levamos em conta. Sem ver fantasmas e demônios circulando por corpos por milhares de anos, olhando só a materialidade imediata ou de curto prazo, enxergamos muito pouco dessa manifestação peculiar da mente que é a realidade humana.)

(Rascunho de junho de 2016, com algumas modificações.)

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Publicado em 28 de abril de 2017 na categoria textos

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